MORDOMIA DÁ DIVIDENDOS

MORDOMIA DÁ DIVIDENDOS

Berta acompanhou Juscelino nas viagens para o exterior. Uma delas foi para o Panamá, em 1956, quando aconteceu a reunião dos presidentes das “Três Américas”. Berta ofereceu de bandeja um Super Constellation, novinho em folha, para transportar Juscelino. E ainda deu carona, sem custos extras, para Don Alberto Zubiria, presidente do Uruguai, país com o qual a VARIG mantinha interesses comerciais desde 1942, quando inaugurou sua primeira rota internacional.

No entanto, antes da posse, em 1955, antecipando-se à concorrência, Berta levou Kubitschek para os Estados Unidos e a Europa, num Super Constellation da VARIG. O moderno avião foi especialmente preparado para a missão. Conforme Berta contou: “Foi uma oportunidade única de conquistar a intimidade do presidente, além de prestar relevante serviço para o país”.

A viagem serviu como uma demonstração de eficiência da nossa aviação. Juscelino dispunha de pouco tempo para visitar inúmeros países. A escolha do Super foi estratégica para que o programa fosse cumprido em tempo e na hora. Em apenas 13 dias, o avião da VARIG levou o presidente eleito por vários países, a saber: República Dominicana (Ciudad Trujillo); Estados Unidos (Key West/Washington/New York); Holanda (Amsterdam); Inglaterra (Londres); Bélgica (Bruxelas/Luxemburgo); França (Paris); Alemanha (Düsseldorf); Itália (Roma).

Aproveitando a oportunidade, no mesmo avião que levava a comitiva, Berta transportou uma missão de técnicos da empresa para estudos e observação especializada em países europeus. Na Inglaterra, os técnicos da VARIG visitaram as instalações da famosa fábrica De Havilland, construtora dos aviões Comet.

A viagem transcorreu com toda a regularidade, possibilitando o perfeito cumprimento dos compromissos assumidos por Juscelino. Berta ficou chegado ao presidente, sendo seu anfitrião, propiciando um tratamento de bordo impecável, bem como perfeita eficiência técnica demonstrada pelos tripulantes e pela qualidade do equipamento.

Vale aqui mencionar um episódio relatado pelo comandante Rubens Bordini, que fazia parte da comitiva. Em entrevista que me foi concedida para a revista Cantata da Apvar, numa série intitulada “Aviação é minha vida” e mais tarde ampliada e colocada no livro Vida de Aviador, ele conta sobre o voo que transportava o presidente Kubitschek:

“Nos Estados Unidos, começamos por Key West, na Flórida, onde descansava o presidente Eisenhower. De lá, fomos para Nova York, onde ficamos à espera de Juscelino, que fora a Washington de trem.

Na saída de Nova York para a Europa (estávamos em pleno inverno no hemisfério norte), havia uma frente fria cobrindo praticamente todo o Atlântico Norte, com um tempo tão ruim que nenhum avião havia decolado para fazer esse trajeto. Juscelino, porém, tinha entrevista marcada nos países europeus e insistiu em sairmos.

A tripulação do nosso avião era brasileira, liderada pelo comandante Geraldo Knippling. Berta, que estava a bordo, insistiu em contratar um piloto e um navegador da KLM, alegando que o nosso pessoal não tinha experiência com a Europa e que o voo era de muita responsabilidade, no que ele tinha razão, apesar da contrariedade que isso causou em nosso pessoal.

Decolávamos, pois, de Nova York com os tanques cheios, rumo a Santa Maria, nos Açores. Tudo corria bem quando houve um corre-corre, ou entra e sai na cabine de comando, que indicou que algo não ia bem. Soubemos, logo em seguida, que o tanque central das asas do L-1049 estava com um vazamento total.

Berta, imediatamente, entrou em pânico e invadiu a cabine de comando, dando as mais disparatadas ordens — o que provocou certo atrito com a tripulação. Berta queria retornar, mas os pilotos achavam que poderiam atingir Santa Maria sem problemas.

Afinal, Berta foi praticamente expulso da cabine de comando e a tripulação prosseguiu até Santa Maria, apesar do nervosismo do chefe, que passeava agitado pelo corredor do avião. Os pilotos tinham razão, e Santa Maria foi alcançada normalmente.

Lá, o tanque central foi deixado vazio e, como o trecho Santa Maria–Amsterdam era mais curto do que o anterior, o avião foi direto à Holanda, onde foi efetuado o conserto do vazamento.”

Este foi, certamente, o único incidente, sem maiores consequências, ocorrido nos 13 dias da viagem transportando a comitiva presidencial.

(Continua)

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