HÁ 20 ANOS, A VARIG CHEGAVA AO FIM
Matéria do Correio do Povo (18/07/2021)
HÁ 15 ANOS, A VARIG CHEGAVA AO FIM

O Rio Grande do Sul tem muitos símbolos: chimarrão, erva-mate e churrasco; Internacional e Grêmio; Elis Regina, Mario Quintana e Erico Verissimo. Outro nome que pode integrar essa lista nasceu em 7 de maio de 1927 e se tornou a primeira empresa de transporte aéreo legitimamente fundada no país.
Após tentativas frustradas de criar uma companhia aérea em Recife e no Rio de Janeiro, o alemão Otto Ernst Meyer fundou a Viação Aérea Rio-Grandense, a Varig. Com 79 anos de atuação e aviões que ficaram famosos por estamparem o tradicional logo da Rosa dos Ventos, a empresa aérea mais importante do Brasil e a maior da América Latina durante décadas encerrou suas atividades em 20 de julho de 2006.
As 127 aeronaves que chegaram a operar em 36 países, a rede de hotéis, a empresa de logística, as estações de rádio de controle aéreo e os mais de 20 mil funcionários ficaram para trás. Permaneceram na memória o clássico jingle “Estrela Brasileira”, com o inesquecível refrão “Varig, Varig, Varig!”, e a imagem da Rosa dos Ventos.
O primeiro voo comercial ligado à história da companhia ocorreu em janeiro de 1927, operado pela alemã Condor Syndikat, a pedido de Meyer. Ex-oficial da Aviação Real Prussiana, ele retornou à Alemanha um ano antes em busca de aeronaves e profissionais para viabilizar seu projeto. Lá firmou um acordo com a companhia aérea alemã, que forneceu um avião e tripulações em troca de participação na futura empresa aérea brasileira.
A primeira aeronave foi o Dornier Wal, batizado de Atlântico. A primeira rota da Varig ficou conhecida como Linha da Lagoa, ligando Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande. O voo era realizado a baixa altitude, entre 20 e 50 metros sobre a Lagoa dos Patos, a uma velocidade de aproximadamente 160 km/h.
O avião tinha capacidade para transportar nove passageiros. No embarque, o viajante era pesado junto com sua bagagem e, caso ultrapassasse 75 quilos, pagava excesso de peso. Eram distribuídos algodão para os ouvidos, a fim de amenizar o ruído dos motores, e chicletes para reduzir o desconforto causado pela mudança de pressão. A viagem durava cerca de duas horas e vinte minutos, mais rápida do que o trem e não muito mais cara para a época.
Nesse período, Meyer contratou seu primeiro funcionário: um estudante de Medicina de 19 anos, porto-alegrense, que um dia viraria nome de bairro em sua cidade natal. A história de Ruben Berta foi retratada pelo jornalista Mario de Albuquerque no livro Berta – Os Anos Dourados da Varig, lançado em maio de 2017, quando a companhia completaria 90 anos.
Visionário e empreendedor, o ex-auxiliar de escritório que se tornou presidente da empresa entre 1941 e 1966 é uma das figuras centrais da história da aviação brasileira. “Entrei na Varig em 1954, com 20 anos, no setor de Controle de Serviços da Manutenção (CSM). Depois recebi uma bolsa de estudos de Berta e me formei em uma das primeiras turmas da PUC. Fui diretor de marketing e participei da divulgação da empresa”, recorda Mario de Albuquerque, conhecido como “Mário da Varig”.
A segunda aeronave da companhia, o Dornier Merkur, também chegou por intermédio da Condor e recebeu o nome de Gaúcho. Mas voar ainda causava receio. Entre 1928 e 1931, os hidroaviões da Condor sofreram uma sequência de graves acidentes.
“Isso marcou a época do pioneirismo da aviação comercial no Brasil. Pela ligação histórica com a congênere alemã, a Varig e a própria aviação comercial, que dava seus primeiros passos, perdiam credibilidade”, relata Albuquerque.
Um dos acidentes mais marcantes ocorreu em 1928, quando um avião da Condor que homenageava Santos Dumont caiu na Baía de Guanabara. O próprio Pai da Aviação acompanhava o evento e testemunhou a tragédia.
A Varig, entretanto, foi poupada de críticas mais severas. “No período de Otto Meyer, operando os hidroaviões Atlântico e Gaúcho até 1941, a Varig passou incólume, sem nenhum acidente fatal transportando passageiros”, lembra o jornalista.
A companhia também adquiriu dois Klemm Kl 25, aeronaves de dois lugares normalmente utilizadas para transporte de malas postais e divulgação da aviação comercial em cidades do interior do Rio Grande do Sul.
Líder sinônimo da empresa
Em 1930, chegou ao fim a sociedade com a Condor, e os aviões Atlântico e Gaúcho foram devolvidos. Sem aeronaves para transportar passageiros, a Varig buscou apoio do governo gaúcho. A companhia recebeu um terreno para construir um hangar e adquiriu novos aviões Junkers.
Esse terreno daria origem ao atual Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre.
A era dos hidroaviões ficava para trás e a aviação brasileira ingressava definitivamente na era dos aviões terrestres. As linhas foram ampliadas para cidades como Santa Cruz do Sul, Cruz Alta e Santana do Livramento.
“Com isso, a Varig teve de realizar diversas obras nos aeródromos que serviriam como destino ou escala. Para proteger seus passageiros das intempéries, pequenas construções foram erguidas em muitos campos de pouso. Essas estações podem ser consideradas alguns dos primeiros terminais de passageiros do Brasil”, explica Albuquerque.
Habituados às rotas do interior gaúcho, os pilotos desenvolveram uma forma curiosa de navegação. Observavam o comportamento dos animais no campo: se eles se assustavam com a passagem da aeronave, era sinal de que o avião estava fora da rota habitual. Se permaneciam indiferentes, significava que o caminho estava correto.
Uma década depois, Ruben Berta assumiria a presidência da companhia, iniciando uma das fases mais importantes da história da Varig.
“Berta era um ser especial, determinado, culto pelo esforço próprio. Era admirado não só por nós da Varig, mas inclusive por dirigentes do país, extasiados pela sua postura ética e moral. ‘A Varig é minha vida, minha família. Meu objetivo é fazê-la gigante, conquistando o mundo’, afirmava ele.”
Para o jornalista Mario de Albuquerque, falar de Ruben Berta é falar da própria Varig.
Não demorou para ocorrer a primeira viagem internacional da companhia. Em 5 de agosto de 1942, a Varig inaugurou a rota para Montevidéu, no Uruguai. Na mesma década foi criada a Fundação dos Funcionários da Varig, posteriormente denominada Fundação Ruben Berta. Todos os funcionários pertenciam à fundação, que passou a deter 50% da empresa.
A paixão de Berta pela companhia era tamanha que ficou famosa uma observação feita por sua esposa, Wilma:
“Ruben tem uma amante. E essa amante se chama Varig.”
A COPA DO MUNDO É NOSSA
A segunda edição do livro Berta – Os Anos Dourados da Varig encontra-se esgotada. Segundo Mario de Albuquerque, alguns exemplares chegaram a ser vendidos por valores elevados no mercado de colecionadores.
Muitas histórias da pesquisa realizada ao longo de mais de dez anos estão disponíveis no site A Grande Família Varig, enquanto outras permanecem apenas nas páginas da obra.
Entre elas, uma das mais curiosas envolve a Seleção Brasileira de Futebol.
Em 1958, quando o Brasil conquistou sua primeira Copa do Mundo, na Suécia, a equipe viajou pela Panair do Brasil, então a maior companhia aérea nacional. O país inteiro queria receber os campeões, e Ruben Berta percebeu a importância daquele momento.
Segundo Mario de Albuquerque, Berta teria afirmado:
“A Seleção tem de voar pela Varig.”
Quando alguém observou que a Panair possuía prioridade nesse mercado, ele respondeu:
“Então vamos comprar a Panair.”
Anos depois, a frase ganharia contornos históricos. Em 1965, após a falência da Panair, a Varig assumiu suas rotas internacionais. A companhia já havia transportado atletas na Copa do Mundo do Chile, em 1962, e continuaria levando delegações brasileiras até o Mundial de 2006, na Alemanha.
PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

Ao falar da Varig, também é impossível ignorar o trabalho de preservação realizado por antigos funcionários.
Um dos mais dedicados é o ex-engenheiro de voo Rubem Oscar Birgel, que ingressou na empresa aos 16 anos e nela permaneceu por 35 anos.
“Entrei muito jovem, depois de concluir um curso técnico. A Varig foi minha vida profissional”, recorda.
Após a falência da companhia, Birgel passou a liderar iniciativas voltadas à preservação de sua memória. Em 2020, juntamente com outros ex-funcionários, organizou uma campanha para adquirir um dos últimos aviões remanescentes da empresa: o Boeing 727-100 cargueiro de matrícula PP-VLD.
A aeronave, entregue à Varig em 1970 e convertida para cargueiro em 1989, encontrava-se abandonada no Aeroporto Internacional Salgado Filho. Para evitar que fosse transformada em sucata, os ex-funcionários organizaram uma arrecadação e participaram do leilão realizado em outubro de 2020.
O grupo venceu a disputa e adquiriu o avião por R$ 85 mil.
O objetivo é transformá-lo na peça central de um memorial dedicado à história da companhia em Nova Petrópolis, na Serra Gaúcha.
“Queremos criar um Memorial Varig com a aeronave restaurada em suas cores clássicas, além de restaurantes, lojas de souvenires e uma exposição permanente de objetos históricos da empresa”, explica Birgel.
Embora a aeronave já esteja desmontada para transporte, o projeto ainda depende de autorizações e da conclusão de etapas logísticas para ser concretizado.
Mesmo bastante deteriorado pelo tempo, o avião ainda preserva elementos importantes de sua história, incluindo o trem de pouso original e a caixa-preta.
Para Birgel, preservar esse patrimônio significa manter viva uma parte importante da história do Rio Grande do Sul e da aviação brasileira.
“Os empresários da região apoiaram a ideia, algo que infelizmente não aconteceu em Porto Alegre. Agora seguimos trabalhando para tornar esse sonho realidade.”























