COM O FIM DA VARIG, ENGOLIDA PELA AEROBRÁS, a SOBREVIDA ESTAVA NA AGROBRAS
No início dos anos 60, a aviação comercial brasileira vivia uma séria crise, dependendo cada vez mais dos favores do governo federal. Esse quadro, alimentado pela existência da Petrobrás, Eletrobrás e outros institutos estatais, fortalecia o movimento em favor da Aerobrás, deixando Berta e o pessoal da VARIG em grande tensão.

A Revolução de 64, finalmente, varreu do cenário a ideia da Aerobrás. Antes, premiado pelas circunstâncias, Berta buscou diversificar as atividades da Fundação criando novas oportunidades de trabalho para seus funcionários.
Apesar do otimismo com o ingresso dos jatos, Berta chegou ao ponto de planejar a criação da Agrobrás, utilizando verba da VARIG e da Fundação dos Funcionários, certo de que um desfecho negativo se aproximava. Seria um novo negócio que funcionaria como alternativa de sobrevivência para todo o grupo, tamanha era a delicadeza da situação.
Berta chegou a temer pelos destinos da VARIG nesse episódio de 1963, em pleno governo de João Goulart. Para se precaver de uma possível intervenção, a Fundação passou a investir pesadamente em outros ramos de atividade, incluindo a pecuária, com granjas e fazendas. Destacava-se a criação de gado holandês, importado do Uruguai, adquirido para incrementar o povoamento do campo. O objetivo era instalar uma indústria de laticínios capaz de atender às necessidades de consumo nos armazéns da Fundação e nos serviços de bordo da empresa. Havia também plantação de trigo, soja e milho, tudo aproveitado para uso interno.
No início de 1966, Berta buscava incrementar a avicultura por meio do aumento da produção de carne de corte, ampliando o sistema de granjas — iniciativa já existente em Porto Alegre e São Paulo. Pretendia criar um novo núcleo no Sítio de Água Preta, próximo à cidade de Recife, a fim de abastecer a região Norte. Com esse programa, procurava colocar a carne de aves no mercado por ser mais barata que a bovina, “aumentando as possibilidades de alimentação proteica do nosso povo”, como ensinava.
As seleções eram conduzidas na Granja Yatti, em Porto Alegre, de propriedade da Fundação, sob a competente direção do Dr. Jorge Abreu, do Ministério da Agricultura. Nesse mesmo ano, no mês de dezembro, Berta veio a falecer, não tendo ocasião de ver concretizados seus planos nessa área. O projeto, no entanto, teve continuidade na gestão de Erik de Carvalho.
Os adversários de Berta chegaram a acusá-lo de desviar dinheiro das subvenções governamentais para engordar outros tipos de negócios, obrigando os funcionários a investirem como acionistas, buscando segurança para enfrentar um futuro incerto. Quem desejasse ter o próprio negócio — desde que não fosse no transporte aéreo — fora da empresa não era molestado, sendo essa atitude vista como precaução.
Muitos colegas chegaram a ter empresas de publicidade, restaurantes e outros negócios paralelos, tocados por sócios ou familiares. Eu próprio tive uma agência de publicidade, uma editora e, tempos depois, um restaurante bastante conceituado chamado Espaço Aéreo — com layout voltado para a aviação — sem nunca ter sido contestado por isso. Ao contrário, era prestigiado por diretores e colegas, que consideravam o local como “o templo da aviação”.