Agradecido Meyer chama Berta de garoto de ouro

Agradecido Meyer chama Berta de garoto de ouro

Berta tornou realidade o sonho de Meyer

Com o decorrer dos anos, Berta deu um show de competência e ficou difícil tirá-lo do comando. Organizou a VARIG de tal maneira que cada passo dado, feito com eficiência e estratégia, era uma caminhada para o sucesso. Tudo feito em conjunto com os seus companheiros de trabalho (coisa que, com o passar dos anos, mudou um pouco), formando um grupo de homens obstinados por uma causa — com a ressalva de que ele ficasse sempre com a palavra final. Muitas vezes escutava, mas decidia à sua maneira. Uma ampla visão dos acontecimentos e o conhecimento profundo das nuances da aviação mundial davam respaldo à sua postura marcante no contexto nacional, onde começou a destacar-se como líder.

Berta compreendeu, antes de qualquer outro, as dificuldades do setor. Antecipou problemas e apontou soluções. Ganhou a simpatia de autoridades, dos seus companheiros de jornada e do público usuário, encantando todos com o resultado dos bons serviços oferecidos. Ao mesmo tempo em que crescia na admiração de muitos, ganhava a antipatia dos seus concorrentes, que viam nele uma constante ameaça. Berta era considerado um usurpador de oportunidades, usando recursos considerados ilegítimos no lobby com as autoridades, praticando propaganda enganosa e dominando os editoriais dos grandes jornais e os espaços da mídia.

Meyer sempre reconheceu a capacidade de Berta, a quem chamava, segundo documentos encontrados em seu arquivo pessoal, de “garoto de ouro” já em 1930. O desejo de Meyer de voltar à direção da empresa que havia fundado (e até que ponto ele foi obstaculizado) é um segredo que não foi desvendado. Ele jamais o comentou, mesmo nas entrevistas para a Rosa dos Ventos, nosso órgão interno. Mas tudo leva a crer que houve um acerto entre ambos, tendo Meyer reconhecido o potencial do seu pupilo, que já tinha todo o grupo ao seu lado. Na verdade, nunca houve conflito pela busca do poder entre ambos. Uma das possibilidades contra Meyer era seu estado de saúde, abalado por doenças adquiridas na época da guerra. Berta providenciou um lugar para Meyer no Conselho e tudo ficou resolvido.

Em 1941, Meyer teve duas propostas quando se retirou da VARIG: uma, a de receber importante soma em dinheiro, capaz de garantir o seu futuro e o da sua família; outra, a de manter uma aposentadoria com ganho regular, opção que ele preferiu, mantendo, assim, um vínculo com a empresa e um tênue fio de esperança na busca de dias melhores. “Quem vai ao ar perde o lugar” — ditado popular que Berta conhecia bem e soube aplicar.

A “santíssima trindade” (três em um) deu a Berta o controle absoluto do sistema e impediu qualquer ação de Meyer para retomar o comando. Em 1945, ficou sendo presidente da Fundação dos Funcionários, do Conselho de Administração e presidente da VARIG, tudo conforme rezavam os estatutos.

Essa composição lhe rendia amplos poderes, embora pudesse ser vencido pelos votos dos membros do Colégio Deliberante. No entanto, estes eram escolhidos a dedo. Tinham, na maioria, cargos de confiança na empresa e pouco conheciam a maior parte dos assuntos debatidos em Assembleia, o que retirava a possibilidade de uma discussão mais aprofundada. Ao mesmo tempo, os constantes debates públicos sustentados por Berta contra seus possíveis opositores na imprensa, aliados à sua posição decidida e forte personalidade, garantiam vantagem absoluta sobre qualquer outro concorrente, que deveria sair da própria organização.

Meyer era introvertido e apaziguador, quase tímido. Tinha alguma dificuldade com o idioma português — coisa que mais tarde dominou completamente. Valia-se da facilidade de Berta em se expressar corretamente e escrever muito bem, aliada a uma postura marcante e inteligência brilhante. Meyer foi a pessoa certa no momento certo para a VARIG.

Amizade do começo ao fim.

Berta, igualmente, cumpriu seu destino histórico, atuando com determinação e criatividade numa época de conturbação política. O fundador da VARIG não teria, por uma série de circunstâncias, condições de cumprir a missão de defender os interesses da companhia naquele nebuloso quadro da vida nacional. Envolver-se nas artimanhas políticas foi um dos grandes atributos de Berta, coisa que ele soube usar como poucos. Muito ligado a Getúlio Vargas desde os tempos da Revolução de 30, chegou a assinar a lista de adesão ao PTB, mas nunca foi militante. Jamais aceitou qualquer cargo político, embora convites não faltassem.

Comandar sem restrições definia uma aptidão que ele dominava. Suas decisões eram acatadas e cumpridas. Todos confiavam na competência que ele demonstrava e se deixavam levar pelo seu carisma. Seguindo o exemplo de Vargas, prestigiava o assalariado, embora odiasse as greves — para ele, um atraso no desenvolvimento dos negócios. Considerava o diálogo, desde que não houvesse paralisações. Com a Fundação, oferecia os maiores benefícios, conquistando cada funcionário através da família. A esposa jamais aceitava que o marido se desvinculasse do emprego, que oferecia garantias muito difíceis de serem encontradas em qualquer outro lugar. As vagas, na sua maioria, eram preenchidas por familiares, indicados por quem já estava na casa. Era uma filosofia bem aceita por todos, chegando a passar, muitas vezes, de pai para filho. Nascia, assim, o mito da chamada “Família VARIG”.

Meyer não gozava de saúde perfeita, resquícios dos tempos da guerra de 1918, em que participou como militar alemão. No Brasil, chegou a ter malária, controlada depois de prolongado tratamento. Ao contrário, Berta era bem mais jovem e possuía, entre outros atributos, uma memória prodigiosa. Por um desígnio do destino, vieram a morrer no mesmo ano de 1966, por causas naturais.

Seus adversários, no entanto, viam no presidente uma série de defeitos, onde a prepotência se destacava. Era muito combatido e sua vida, em defesa da VARIG, nunca foi um “mar de rosas”. Berta era bem-disposto, embora quase sempre carrancudo. Amava, como Meyer, o que fazia. Ambos cultivavam uma paixão desenfreada pela leitura, incluindo livros e escritores preferidos.

Com o passar dos anos, Berta tornou-se um líder não só na VARIG, mas em toda a aviação, no país e no mundo, sendo aclamado presidente da OAC. Além de ganhar a confiança dos seus colaboradores com a criação da Fundação, concentrou em suas mãos todo o controle da empresa. Politicamente, conquistou uma aproximação altamente estratégica com os vários presidentes do país, o que garantiu à VARIG as metas de crescimento dos negócios. Praticamente, Meyer ficou como um peixe fora d’água e acatou a liderança do seu protegido.

Na verdade, Ruben Martin Berta foi um homem sem ambições pessoais. Como seu eterno parceiro, Otto Ernst Meyer, dedicou-se exclusivamente à paixão pela VARIG, que ambos criaram como se fosse um próprio filho. Tanto Meyer quanto Berta tiveram uma vida modesta, considerando os padrões que cercavam a existência de cada um, sem ostentação, mordomias ou demonstração de riquezas. A criatura engoliu o criador, mas foi tudo bem temperado, sem causar indigestão.

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