Minha Vida na Varig (II)
EMOÇÃO INCONTIDA
Dois anos depois do desaparecimento do nosso jato cargueiro, eu estava em Los Angeles seguindo para Tóquio, refazendo o trajeto que meus colegas haviam cumprido no fatídico voo 967. O avião também era um Boeing 707, semelhante ao desaparecido, com a diferença de não ser cargueiro. O aeroporto também era o mesmo: Narita. Estar pessoalmente no local onde o episódio insólito ocorrera, sentir o clima, o lugar, as pessoas e percorrer o caminho foi uma decisão que o meu espírito de jornalista investigativo clamava. Junto, havia a possibilidade de proporcionar à família férias memoráveis.
Conhecer o Japão foi uma emoção incontida. O aeroporto de Tóquio, que não fica em Tóquio, e sim na cidade de Narita, na província de Chiba, dista cerca de 60 km da capital. Os táxis no Japão transportam, no máximo, quatro passageiros e algumas bagagens, e nós estávamos em cinco (eu, Geni e os filhos); por isso, a carona no micro-ônibus que conduzia a tripulação chegou em boa hora. Para completar, ficamos no mesmo hotel. Essa aproximação rendeu boas informações, servindo para sentir o clima de perplexidade que o nosso pessoal ainda vivia.

COISAS DA PROPAGANDA
Nos anos 60, a marca VARIG atingiu o apogeu. Era amada e querida por todos os brasileiros e ocupava um lugar especial no coração dos gaúchos. Com a introdução dos jatos — momento histórico que vivi intensamente —, a VARIG dava um salto rumo à liderança no setor. Berta transformava um sonho em realidade. Quando a empresa deixou de voar, em 2006, nada abalou a força da marca. Foi assunto em toda a imprensa — recebeu manchete da Zero Hora: “Nem a crise parece capaz de abater a marca VARIG”.
Lula, então presidente, afirmou: “A VARIG é uma paixão nacional” — mas não fez nada para preservar esse fantástico patrimônio físico, moral e institucional. A relação estreita entre a VARIG e os brasileiros foi a razão principal da comoção popular. Perder a empresa, afirmavam na época, é perder um pouco da nossa identidade — a marca representava o quanto de paixão existia pela VARIG e sua estrela brasileira.
ORGULHO DA MARCA
Tudo isso servia para reforçar o conceito da empresa e tornar cada funcionário seu grande protagonista e incansável promotor da marca VARIG, capaz de abrir portas em qualquer situação. O pessoal da manutenção vestia macacão e um blusão, feito em Caxias do Sul, com o logo da VARIG nas costas. Muitos deles retornavam para casa com a vestimenta, só para os vizinhos saberem que trabalhavam na empresa. Outros viajavam nos bondes e ônibus ostentando o crachá, buscando reconhecimento.
A FORÇA DOS BRINDES
Dentro da nossa verba de propaganda, nos anos 70, estava relacionada uma série de brindes para todos os públicos, incluindo o feminino, o executivo e as crianças, com tratamento diferenciado. A VARIG tinha um gasto extra com o desaparecimento dos talheres de bordo — fabricados pela Zivi/Hércules —, levados sistematicamente da 1ª classe pelos considerados colecionadores, que depois exibiam o “troféu” aos amigos, nos jantares pós-viagem.
O assunto era visto com simpatia pelo presidente, pois considerava o “desvio” uma propaganda de alto nível, com retorno garantido. Os brindes da VARIG distribuídos pela Propaganda eram muito disputados. Representavam peças únicas com o símbolo da empresa, não disponíveis no mercado. Eu, nos anos 70, gerenciando o setor, era chamado por muitos amigos de “Mário Promessa”, pois as solicitações eram tantas que, muitas vezes, tornava-se impossível atendê-las.
RELACIONAMENTO COM A IMPRENSA
Todos nós, da Propaganda, tínhamos um excelente relacionamento com a imprensa. Não apenas pela lisura do nosso trabalho, mas pela verba farta que distribuíamos. O prestígio da VARIG era tão grande que havia jornais, revistas, emissoras de rádio e até de TV que vinham oferecer espaço de mídia gratuito para sermos parceiros no lançamento de uma programação, pois o nome da VARIG garantia a qualidade do evento e tornava mais fácil a negociação com terceiros.
O lado comercial era importante nesse relacionamento, mas o sentido humano sempre norteou nossas ações. Na madrugada do Ano Novo, por exemplo, o pessoal da Propaganda (Adílio, Argenor e Edson), juntamente com colegas do serviço de bordo, visitava os jornais e emissoras, levando a saudação da VARIG aos plantonistas, junto a uma enorme cesta repleta de iguarias para a satisfação de todos. Era uma forma de reduzir a distância da família.
O assunto virou folclore e, todos os anos, por muito tempo, a visita do pessoal da VARIG era aguardada com expectativa nas redações. Quando havia o lançamento de uma linha, eu tinha a liberdade de convidar jornalistas para viverem a experiência e aumentar o relacionamento. Era um trabalho de relações públicas que servia para fortalecer o nome da VARIG junto aos órgãos de comunicação, com repercussão no leitor. Obviamente, eles retribuíam com farto material nos cadernos de turismo e tornavam-se amigos para sempre.
FLAGRANTES DE UMA CONVIVÊNCIA FELIZ
A amizade e o coleguismo foram a tônica no relacionamento pessoal durante os 39 anos de VARIG, minha segunda casa. Além dos diretores, com os quais tive sempre harmoniosa convivência, gente chegada a mim por várias razões, além da turma da Superintendência de Propaganda do Rio e São Paulo, aqui em Porto Alegre conquistei amigos inesquecíveis: Adílio Marcelino Inácio, Argenor Moraes, Neusa Rocha, Maria da Glória, Lídia Marques, Nelson Jungbluth, Nilo Jungbluth, Gastão Edgar Bayer, Arno Kaiser, Irgen Negri, Cláudio Tedesco, Ermínio de Mello Rocha, Walter Feder Jr., Ary Alves dos Santos, Francisco de Assis Moreira, Giusep Marinsek, Cláudio de Oliveira Heit, Fernando Oliveira e uma dezena de outros nomes queridos, que até hoje povoam a minha memória.
Nas reuniões do Colégio Deliberante da Fundação, os momentos de lazer eram preenchidos com um grande torneio de futebol. O primeiro deles aconteceu nos anos 80, em Porto Alegre, reunindo o time anfitrião e as equipes de São Paulo, Rio de Janeiro e o Resto do Mundo, como chamávamos o pessoal do exterior. Eu era sempre o dono da bola, garantindo o meu lugar. Nagib era comandante dos modernos jatos da frota, mas ali não tinha hierarquia. O que valia era a competência e quem mandava no time, modéstia à parte, era eu. A vibração da torcida com a conquista do título máximo dá uma ideia da importância do evento (depois de muito chope).

