VOAR ERA POESIA PURA

VOAR ERA POESIA PURA

As duas primeiras décadas da nossa aviação eram movidas pela emoção do desconhecido. Foi assim no tempo do hidroavião Atlântico. Foi assim na época que logo se seguiu, com os aviões terrestres. O ato de voar era poesia pura. Uma aventura até então inimaginável. Em cada saída, em cada chegada, havia um clima de muito “charme”. Os passageiros eram recepcionados calorosamente. As mulheres, em especial, recebiam flores, homenageadas como se fossem protagonistas de um grande espetáculo.

A beleza e a elegância eram realçadas pela coragem de viver um novo momento. No inverno dos pampas, para buscar defesa do Minuano que soprava frio, elas vestiam aconchegantes casacos de pele — normalmente importados da Argentina — com a elegância pródiga de Buenos Aires. E ditavam moda. Os fotógrafos, sempre presentes para marcar o embarque ou a chegada de personalidades, faziam espocar seus flashes e o assunto virava notícia nas páginas dos nossos principais jornais e revistas.

Emoldurando tudo, aparecia a figura do avião e quase sempre a do comandante, requisitado para valorizar o evento. Políticos, empresários conhecidos e pessoas influentes da sociedade eram, normalmente, os passageiros que usavam o avião como meio de transporte, fazendo disso um acontecimento.

As cidades do interior, logo que receberam os primeiros Junkers F-13, transformaram cada aeroporto num lugar de aglomeração e festividade. Foi uma época inesquecível, onde as estradas empoeiradas cediam lugar à leveza e à agilidade do avião, ganhando em tempo e encurtando espaços. Nesse quadro romântico, a coragem das mulheres e como elas enfrentavam o excitante prazer de voar foi uma das razões que deram credibilidade e confiança à aviação de antigamente.

Ao par de todo esse encantamento, histórias fantásticas eram vividas e contadas como lenda por audazes pilotos e suas incríveis máquinas voadoras. A partir dos anos 50, surgia a rainha de bordo. Uma nova figura que passou a ocupar o imaginário das pessoas: a aeromoça — hoje comissária de bordo —, capaz de trazer ainda estilo e beleza, para ornamentar um quadro de satisfação plena. Para coroar todo esse clima, a criatividade dos artistas, compondo peças publicitárias com leveza de traço, carimbava toda a sensibilidade e criatividade de uma geração voltada para grandes conquistas.

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