O VOO PARA A ETERNIDADE
Dia 14 de dezembro de 1966, era um domingo radiante de sol. Da grande janela do Edifício da Varig no Rio de Janeiro, a paisagem convidava para mais um belo fim de semana dedicado ao lazer. Na sala da presidência., no entanto, o clima era outro. Uma máquina não pode parar. Ele era assim. Não media tempo, nem hora, nem esforços que o afastassem do dever– e levava junto seus fiéis seguidores, auxiliares diretos da diretoria.

Dava os últimos retoques para a reunião do Colégio Deliberante dos Funcionários, que seria realizada em Porto Alegre. Considerava um marco na existência da companhia. Resolvera afastar-se da presidência, assumindo outras funções. Decidira indicar substituto – Erik de Carvalho, que buscara da Panair, em 1955, pela sua capacidade no trato de assuntos internacionais, quando diretor no sindicato das empresas aéreas, dando-lhe cargo em uma das diretorias. Logo adiante Berta trouxe-o para mais perto, na função de assessor da presidência para assuntos de sua restrita competência, acompanhando o crescimento da Varig no Brasil e no mundo.

Era uma lacuna que até então seus companheiros históricos não tinham conseguido preencher. Sua capacidade de trabalho e liderança lhe rendeu uma posição na vice- presidência, Foram apenas onze anos de uma carreira vertiginosa, causando algum mal estar junto aos postulantes históricos. .Representava uma virada de paradigma Até então todos os cargos postulantes, indicavam a presença de componentes da diretoria, com raízes históricas na empresa, todos gaúchos.
De um a hora para outra o dia ficou nebuloso para a Varig. Acometido de mal súbito em plena mesa de trabalho, Berta sentiu-se mal. Apesar dos primeiros socorros veio a falecer. A noticia correu célere e ganhou manchetes no mundo da aviação, estarrecendo a grande Família Varig, quando soube, como todo o Rio Grande, prestar-lhe suas ultimas homenagens. A morte de Berta, agora lembrada, ocorrida há 55 anos atrás, reverenciando a figura de um imortal, como tudo aconteceu, suas consequências, num ano trágico para a Varig ( perdendo seus grandes líderes, Otto Meyer e Ruben Berta) é assunto para ser debulhado, como as contas de um rosário, nas edições futuras do nosso Blog.
Com o sorriso habitual, corado e ótimo aspecto, Ruben Berta, presidente da Varig, assistia, no Salão Nobre de “O Cruzeiro”, o cerimonial de batismo dos quadros pelo Embaixador Assis Chateaubriand destinados ao Museu Regional do Nordeste. Lá estava ele ao lado do “Velho Capitão”, companheiro de tantas viagens, ligado por laços de firme amizade, prometendo levar os tesouros de arte, como já fizera antes, sobre as asas dos aviões da “Pioneira”, para o seu destino. Parecia forte o moço com os seus 59 anos, cabeça e alma de uma empresa poderosa.
Alguns dias mais tarde, a notícia que interrompe os programas de rádio : ” Faleceu, vítima de um ataque cardíaco, na sua mesa se trabalho, Ruben Berta ” E nós, colaboradores e amigos encontramos no hangar da manutenção de Santo Dumont, o seu ataúde. Na luz inquieta das velas, debaixo do cristal, descansava quem nunca tivera tempo para isto
“Acredito na sua palavra” – disse o senhor Otto Ernest Meyer, no fim da nossa conversa. “Acredito, mas prefiro que “mein junger Mann ( o meu rapaz”, verifique o que você nos possa realmente oferecer”. Dia seguinte, maio de 1937, o “rapaz” do diretor da Viação Aérea Rio-Grandense, tocou a campainha do meu estúdio fotográfico. No edifício Renner em Porto Alegre, sentou no chão e assistiu a projeção dos filmes, amostra de um trabalho previsto para a jovem empresa de aviação. Apresentou-se como Ruben Berta – embora na realidade não fosse mais, simplesmente, “o meu rapaz” do senhor Otto Meyer, pois já ocupava o cargo de procurador. Mas, passados alguns anos de existência da empresa continuou vivendo assim, como se nela tivesse começado: pau para toda obra – “mão direita” de um diretor, que criado na mais rígida disciplina prussiana procurou realizar um plano bastante doído para a época – abrir nos confins do Rio Grande do Sul, mal servido de estradas de ferro, pessimamente de estradas de rodagem, através da aviação comercial.
No seu gênio teutônico viu essa possibilidade somente no trabalho abnegado – dele e do mais dedicado dos seus servidores. Entusiasmou o rapaz Ruben, descendente de família teuto -brasileira humilde e confiou nele forjando-o ao seu modo : trabalho com “T” maiúsculo, disciplina militar, ligado a um único ideal:: dominar os ares do Rio Grande do Sul. O futuro parecia tão incerto quanto as águas traiçoeiras do Guaíba. Os incrédulos chegaram a predizer um funesto fim aos planos fantásticos da conquista do espaço aéreo… Como na previsão da cigana todos os maus agouros não vingaram
Ed Keffel (revista O Cruzeiro)
One thought on “O VOO PARA A ETERNIDADE”
Com orgulho venho confirmar que as inumeras vezes em que viajei pela VARIG sinto a me como se fizesse parte da empresa, era como se eu fosse além de passageiro, um funcionário, sensação que sinto até hoje.
Sempre que posso, posto o texto de um ex comandante da VARIG que serviu até o final por mais de 20 anos e que relata como foi feita através de advogados a falência da empresa,