BERTA, GETÚLIO E CHATEAUBRIAND (PARTE 4)

BERTA, GETÚLIO E CHATEAUBRIAND (PARTE 4)

 VARIG X SAVAG

UMA GUERRA NOS ARES COM SOTAQUE GAÚCHO

O MONOPÓLIO DAS LINHAS NO ESTADO ESTAVA EM JOGO.  PELA PRIMEIRA VEZ A VARIG ENFRENTAVA UM INIMIGO DENTRO DA PRÓPRIA CASA PRONTO PARA DERRUBAR SUA HEGEMÔNIA

A VARIG estava vivendo um momento de euforia, com a criação da Fundação dos Funcionários um ano antes. Junto com organização e planejamento estratégico preparava-se para crescer. No pós-guerra um mundo novo se abria na mente de Berta. Aviões militares transformados em peças civis comprados por preço convidativo abria um novo horizonte de crescimento. A Varig comandava o Rio Grande e crescia de uma forma avassaladora. Tudo isso era observado pela concorrência, onde disputavam empresas já organizadas, como Cruzeiro do Sul e Panair do Brasil.

Prevendo dar um pulo mais ambicioso, Berta acabará de comprar uma briga que poderia ter consequências desastrosas.  Sem um motivo muito claro rompeu um acordo operacional que mantinha com a Cruzeiro, desde 43, cancelando os voos de conexão que fazia do interior do estado para São Paulo e Rio de Janeiro, resolvendo ele mesmo dar as cartas, nesse jogo complicado para um iniciante.

Propaganda da SAVAG na Revista do Globo

 

Com a frota modernizada, com a inclusão dos Douglas DC-3 e Curtiss C-46 tripulação bem treinada, qualificando a manutenção, logo ganhou espaço, inclusive no serviço de carga com grande aproveitamento dos seus aviões. De dia transportavam comodamente passageiros satisfeitos com o atendimento. À noite passavam por autêntica operação, sendo transformados com a retirada das poltronas e preparação dos porões, como cargueiros, levando as riquezas do Rio Grande além-fronteiras.

Entretanto, o já esperado aconteceu. Estabeleceu-se um clima de rivalidade entre as empresas e seus líderes. E a reação não se fez por esperar. Apoiado por Ribeiro Dantas, contando com investidores tendo à frente o comandante Gustavo Cremer e o advogado Augusto Leivas Otero, ambos oriundos da Panair, com a aquiescência do Ministério da Aeronáutica, foi fundada em 25 de novembro de 1946 a Sociedade Anônima Viação Aérea Gaúcha – SAVAG. Era uma empresa de carácter regional criada para atender o Rio Grande do Sul buscando acabar com o monopólio da Varig no estado, numa franca atitude de enfrentamento.

 

Cmte. Cremer recebe Getúlio na porta do Lodestar da Savag

Em dezembro de 46 Berta fez um contundente pronunciamento por ocasião da reunião do Colégio Deliberante da Fundação, recém criado. Tocou no assunto sem citar nomes, afirmando: “No ano que se aproxima a Varig terá de travar um novo enfrentamento, agora em seu próprio estado natal. Este, pela proporção das forças em jogo não parece poder alcançar a profundidade das lutas anônimas que travamos em 46, nem encontrarão os riscos que passou a companhia no período que ora finda”. Previsão que viria a se tornar totalmente equivocada

Sem contar com a parceria de Vargas, isolado na fazenda de Itu, Berta não pode impedir no governo de Dutra, esta concorrência indigesta e incômoda. Na verdade, interessados no conflito, tanto a Cruzeiro como a Panair, tomaram posição ofensiva passando a prestigiar a nova empresa. A primeira chegou a transferir dois aviões Douglas DC-3, na tentativa de revigorar a frota da SAVAG. No entanto, nada foi capaz de tirar da VARIG a liderança absoluta do seu transporte aéreo. Berta sobe transformar palavras em ação

Para expandir suas linhas no interior do estado, ele havia liderado um grande trabalho na preparação e infraestrutura nos campos de pouso, muitos deles até então inexistentes. No acordo fechado com o Ministério da Aeronáutica, a companhia detinha direito exclusivo no uso das pistas, sendo responsável na sua manutenção podendo ceder autorização para terceiros conforme as necessidades e seus interesses – um verdadeiro monopólio. O governo, no entanto, fez valer um decreto que liberava as pistas, cabendo a VARIG, no caso, cobrar uma determinada taxa por pousos e decolagens.

COM CHATÔ E VARGAS O PROTAGONISMO DA VARIG

Em 1952, graças ao prestígio junto ao governo federal, agora novamente nas mãos de Getúlio Vargas, Berta conseguiu com que a SAVAG tivesse cancelada diversas frequências como competição predatória. Berta foi a luta buscando conquistar novos espaços. Aumentou e qualificou a frota coma aquisição dos Douglas DC-3 e os Curtiss C-46 passando a servir 14 cidades no interior do estado. Chegava a Santa Catarina e Paraná, alcançando São Paulo e Rio de Janeiro, além de Montevidéu.

 

Em 53, depois de adquirir a Aéreo Geral, alçou voo até Natal, no Rio Grande do Norte, passando a competir diretamente com grandes congêneres como Cruzeiro, Panair, Vasp e Real/Aerovias. Deixava assim de lado os cuidados com a SAVAG, sem nunca abandonar o Rio Grande do Sul, que levava o nome em sua sigla e no bojo dos seus aviões.

A empresa crescia sem esquecer a aviação regional. Quando fui admitido na Varig, em 1954, meu primeiro trabalho foi atuar no CSM (Controle de Serviço da Manutenção) ligado ao setor de engenharia. A nossa função era escalar os aviões para os voos de rotina visando seus aspectos técnicos – No grande quadro negro que orientava nosso desempenho, haviam 20 rotas destinadas a aviação regional.

PAVOROSO UM DESASTRE ESTREMECEU O RIO GRANDE

Um golpe mortal desferido pelo destino fez sangrar a SAVAG e emocionou o Rio Grande A história da guerra VARIG X SAVAG era assunto ainda comentado e seguido pelo pessoal da Manutenção, até porque a SAVAG, absorvida pela Cruzeiro continuava viva. Contavam como um golpe mortal do destino, fez a empresa perder seu presidente e fundador, o piloto Gustavo Cremer. Entre as vítimas encontrava-se, também, o senador gaúcho Joaquim Pedro Salgado Filho, ex-Ministro da Aeronáutica. O fato causou consternação geral e serviu para abalar em muito o prestígio da SAVAG. O avião, um Lockheed Lodestar de prefixo PP-SAA quando voava de Porto Alegre para São Borja enfrentou mau tempo. Chocou-se com uma árvore ao tentar um pouso de emergência, incendiando-se. A tragédia causou a morte dos seus quatro tripulantes e mais três passageiros além do já mencionado Salgado Filho, um dos grandes incentivadores da aviação brasileira como Primeiro Ministro da Aeronáutica. Era ligado ao presidente Vargas com viagem marcada para definir sua candidatura ao governo gaúcho. Falecido prematuramente, teve seu nome chancelado ao aeroporto de Porto Alegre que passou a chamar-se Aeroporto Internacional Salgado Filho.

Salgado Filho passa a ser nome do Aeroporto Internacional de Porto Alegre.

Por sua vez, a Varig crescia e se firmava, galgando conceito internacional enquanto a SAVAG definhava aos poucos.

Em virtude das dificuldades a Cruzeiro, sob o comando de Ribeiro Dantas,  praticamente assumiu o controle da SAVAG. Passou a fornecer aviões, tripulação e manutenção, estendendo uma linha até Curitiba em operação conjunta. Fez um consorcio operacional.  A SAVAG parou de voar em 01/01/66, quando foi definitivamente absorvida pela Cruzeiro do Sul, deixando livre os caminhos dos Pampas, justamente no ano do falecimento de Berta, que ainda chegou a saborear sua vitória regional, além de outas tantas de nível mundial

GETÚLIO SOBREVIVEU PARA A POLITICA GRAÇAS AOS DIARIOS ASSOCIADOS DE CHATEOUBRIAND

Uma grande reportagem feita pelo jornalista Samuel Wainer para O Jornal, órgão líder dos Diários Associados afagando o “velho” reabrindo as portas da política para Getúlio Vargas.  deu a Chatô a oportunidade de reviver  Vargas – Entrevistado na fazenda de Itu, solo gaúcho  onde cumpria um  afastamento voluntário, declarou em furo de reportagem, seu desejo de voltar a refrega das urnas em pleito democrático, depois de dirigir o país como ditador por vários anos. Até então esse era um assunto tabu, que Getúlio se achava no direito de não abordar na imprensa.

Chatô e Getúlio – Campanha da Aviação Civil doando aviões para Aeroclubes

“Bota o retrato do velho. Bota no mesmo lugar. O retrato do velhinho faz a gente trabalhar”, cantado por Francisco Alves passou a ser o refrão do queremismo pedindo a volta da Vargas na disputa das urnas para dirigir o país, despido da pecha de ditador. Um grande furo, logo confirmado, levou Os Diários Associados e seu diretor presidente a ver reproduzida a matéria na mídia mundial.

Berta havia se tornando um amigo íntimo de Vargas desde os tempos da criação da Varig, dando seu apoio irrestrito a causa da aviação entre nós, depois salvando a Varig do extermínio na fusão  com o Sindicato Condor. Em contra partida junta-se a isso a participação da Varig na Revolução de 30 aderindo à causa Liberal. Além do episódio da Savag a última gauchada de Getúlio Vargas ficou consagrada em 52 quando retirou a concessão para Nova York dada a Cruzeiro, que alegou a necessidade de subsídios para viabilizar a linha. De imediato mandou chamar Berta e repassou para a Varig a linha de Nova York Logo em seguida atendeu solicitação de Berta pela mesma reivindicação negada a Cruzeiro. Berta tinha uma imagem de trabalho tão transparente e comprovada, que seus pedidos, em regra geral, eram sempre acatados.

Getúlio condecora Berta no Dia do Trabalho

 MUSEU RUBEN BERTA – A ÚLTIMA HOMENAGEM

Chateaubriand, já em cadeira de rodas, recebeu a visita de Berta, em pleno Museu do Masp, em São Paulo. Ele chamou Berta para agradecer a contribuição da Varig, que acabara de transportar, como cortesia, obras de arte vindas do exterior para enriquecer o acervo do museu. Nas asas da VARIG, na pena escriba do insigne jornalista e empresário, virtudes ganhavam formas em louvor a cultura e o saber.

Chatô – Embaixador do Brasil no Reino Unido

Assis Chateaubriand arquitetando museus, catando pelo universo peças valiosas que Berta pinçava, com um cuidado cirúrgico, transportando para o Museu de Arte de São Paulo cada tijolo de uma grande construção (Masp) formavam uma parceria digna dos grandes pensadores.

Dias depois, Berta veio a falecer subitamente. Homenagear o amigo em sua terra natal edificando um Museu com seu nome, ficou marcado como ato derradeiro de carinho que o magnata da imprensa prestava ao amigo. É por esse motivo que cultivo a história por quem teve, como eu, o privilégio de conviver com estas duas figuras de eterna lembrança.

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Mande e-mail para: agrandefamiliavarig@gmail.com

 

 

One thought on “BERTA, GETÚLIO E CHATEAUBRIAND (PARTE 4)

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